Em pauta: compartilhamento de veículos

LLCOMPARTILHAMENTO
Compartilhar, compartilhar! Recentemente, a palavra tem ganhado força no mercado automobilístico. No Brasil, alguns aplicativos e sites já disponibilizam a possibilidade de pessoas físicas alugarem seus próprios carros. A proposta ainda tem pouca adesão no país, mas parece ter um futuro razoável. Por outro lado, é comum também a chegada de empresas que realizem o aluguel por hora. Cidades como São Paulo, Porto Alegre, Curitiba e Recife já disponibilizam o serviço.
Com o assunto em alta, a Revista SINDLOC-MG decidiu entrevistar três empresários e diretores do sindicato para falar do tema. Leonardo Soares, da Yes Aluguel de Carros e também Presidente do SINDLOC-MG; Saulo Froes, da Lokamig Rent a Car e Presidente de Honra do sindicato; e Marco Aurélio Gonçalves, da M&M Rent a Car e conselheiro fiscal do SINDLOC-MG. Eles falam de como isso será acolhido no mercado, qual a visão do sindicato e as perspectivas de futuro.
Leonardo Soares: Temos o exemplo da indústria fonográfica que ficou criando caso com as mudanças e demorou a entender que as alterações de lógica de mercado eram necessárias e irreversíveis. No nosso segmento, não é diferente. A gente precisa, neste primeiro momento, entender quais os riscos que esse negócio tem para os usuários porque o nosso negócio é cheio de riscos. O dono do carro, às vezes, acha que é simplesmente uma fonte de receita e esquece de fazer cálculos.
Saulo Froes: Sem falar em Súmula 492. Ela prevê, em casos de acidentes que envolva danos materiais causados a terceiros, a responsabilidade solidária da locadora. Isso quer dizer que o dono do veículo terá que arcar com todo valor indenizatório. Esse risco é incalculável! As pessoas que estão pensando em alugar seus carros precisam saber disso. Mesmo tendo seguro o valor poderá ultrapassar ao estipulado na ação e caberá ao dono do carro pagar todo excedente.
Marco Aurélio Gonçalves: A gente precisa ter cuidado em separar o compartilhamento de interesse pessoal e o compartilhamento como negócio. No meu entendimento, o interesse das pessoas é que exista o compartilhamento e isso já existe. Vizinhos que se organizam para irem trabalhar juntos e dividirem os custos de combustível, por exemplo. Nesse contexto, é preciso lembrar que quem dirige o carro é o dono do carro e na semana seguinte é o outro carro, de outro vizinho que é usado. Eles compartilham a utilização do veículo. O compartilhamento existe para uma melhor utilização do meio de transporte. Mas o compartilhamento como negócios, ou seja, onde se utiliza um veículo de outro, alugando de uma pessoa física para outra, isso gera toda uma lista de problemáticas, que inclui a Súmula 492 e toda cultura do uso do automóvel do outro. Depois, vem a questão da legislação para isso. Nada é regulamentado ainda. É uma tendência que deverá crescer nos próximos anos, mas é preciso lembrar os altos riscos e é preciso discuti-los para que ele se desenvolva de uma forma saudável. A gente, como uma entidade representativa precisa ficar atento e acompanhar esse nicho de mercado de uma forma a orientar os envolvidos nesse processo.
Leonardo Soares: Isso quando for empresa.
Marco Aurélio Gonçalves: Isso. No momento que isso acontecer, se aproximar para orientar as empresas constituídas a partir desse novo mercado.
Leonardo Soares: Nesse sentido, uma coisa é o compartilhamento, empresas que irão atuar mais ou menos nos mesmos modelos das bicicletas do Itaú. É um nicho novo e necessário de mercado. Isso vai constituir um mercado profissional, com pessoas jurídicas que certamente estarão perto do SINDLOC-MG. O que me preocupa muito, que é novo e a gente não sabe bem o que irá acontecer, é o compartilhamento entre pessoas físicas. É o Uber do aluguel de carro. A oferta nesse mercado é: eu tenho lá o carro da minha mãe, por exemplo, que fica parado de segunda a sexta. Ela só usa no final de semana. Aí eu vou lá e alugo o carro dela. Isso terá um nicho muito específico de mercado. Isso não vai acabar com a locadora tradicional, assim como o Uber não acaba com o táxi. O gráfico de pizza vai ser dividido e cada um terá sua fatia. Nada impede, por exemplo, que as próprias locadoras usem esses serviços. Veja o caso do Uber: já entrou em atividade no Brasil o seu concorrente e daqui a pouco terá outras e outras empresas para concorrer. Nada impede que as locadoras captem carros de pessoas físicas para realizar o aluguel, por exemplo. É tudo muito novo e aberto ainda.
Saulo Froes: Daqui a pouco a gente vai ter seguro específico para cuidar de casos assim, já reduzindo alguns desses riscos.
Leonardo Soares: Pois é.
Marco Aurélio Gonçalves: Tem uma coisa nisso que é preciso ser lembrado: o padrão. É impossível que pessoas físicas consigam competir com o padrão de uma empresa. Como definir um padrão de frota? De atendimento? Dos serviços? De conhecimento mesmo da lógica de produção? Isso é complicado. O que é tranquilizador para quem atua no mercado tradicional é que o crescimento do aluguel de carro é inevitável. O mercado no Brasil ainda é muito pequeno. Nos próximos anos a gente vai ver as locadoras crescerem, novas locadoras iniciarem suas atividades e todas essas possibilidades tecnológicas também estarão no reboque.
Leonardo Soares: Em qualquer forma de negócio existirá os bons e os ruins. No mercado da pessoa física é mais provável situações como o aluguel de veículo sem as devidas e cuidadosas revisões, por exemplo. As locadoras atuam, em geral, com a manutenção preventiva rigorosa.
Marco Aurélio Gonçalves: Isso já acontece com os táxis. Você pega um táxi com 300 mil quilômetros rodados. Como garantir a qualidade desse atendimento? O Uber já atua com veículos novos. No nosso caso, as locadoras têm média de 19 meses de frota. Carro quase zero quilômetro. Isso não acontecerá com o mercado de pessoa física.
Saulo Froes: Pra mim o maior problema é a responsabilidade civil. As locadoras são responsabilizadas, por exemplo, em casos de atropelamento. A tal Súmula 492 que a gente falou antes.
Leonardo Soares: Fundamental se discutir isso. Como será em caso de um carro particular alugado para outro particular que atropelou alguém? O mercado hoje é diferente do que foi o mercado em 2006 e muito diferente do que era em 1996. Ou seja, daqui a 10 anos a gente vai viver numa outra realidade. O mercado sempre, sempre se adapta. Veja o rápido histórico do Uber. O Uber chegou causando impacto com o Uber Black. Depois o próprio Uber, ao criar o Uber X, acabou com o Black. Agora já é comum que os uberistas reclamem do mercado, que tem muito motorista rodando e tal. Poucos andam fazendo as contas de verdade e calculando se, de fato, o mercado é lucrativo. É a mesma lógica. Na hora que alguém estiver alugando o carro da mãe e o dinheiro estiver caindo, ótimo. Ele vai achar rentável. Mas na hora que um locatário bater o carro ou roubar o carro da mãe, aí é que se saberá se realmente vale ou não a pena apostar nisso.
Marco Aurélio Gonçalves: O Uber não fechou o ciclo. É preciso fechar para se fazer as contas de fato. E depois que fechar o primeiro ciclo, vai ser necessário esperar para o fechamento do segundo ciclo e aí sim, poderemos enxergar o que essas tecnologias estão trazendo para os empreendedores de plantão.
Saulo Froes: Outra coisa. Alguém pode falar assim: se no exterior dá certo, porque aqui não daria? É uma cultura completamente diferente. É preciso levar isso em consideração.
Marco Aurélio Gonçalves: Eu acho que cabe ao sindicato contribuir para o crescimento de todos os negócios, inclusive para pessoa física, desde que isso seja regulamentado e formalizado.
Saulo Froes: Até porque isso também contribui para o desenvolvimento do segmento.
Leonardo: Sim, sim! Somos a favor do livre comércio e do livre mercado, mas é preciso ser regulamentado. É importante dizer que o sindicato é aberto a discutir, a entender as novas tendências e com sua experiência, contribuir para a profissionalização e melhoramento do mercado como um todo.
Por Leandro Lopes, da Revista SINDLOC-MG.

Translate »