Locadoras se unem para resistir ao futuro

Assim como bancos, redes de varejo, instituições de ensino e vários outros setores, empresas de aluguel decarros chegaram à conclusão de que incorporar concorrentes pode ser bom negócio

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Com a fusão, Locamerica-Unidas passa a assumir a segunda colocação do mercado liderado pela Localiza, que tem quase 20% de market share em tamanho de frota (Foto: DIVULGAÇÃO)

São Paulo – Alguns dos setores mais relevantes da economia viveram, nos últimos anos, ciclos de intensa consolidação – jargão que, no dicionário econômico, define quando várias empresas se unem para criar uma companhia mais robusta. Apenas para relembrar os casamentos mais recentes, foi assim no setor bancário, com o Itaú e o Bradesco incorporando grandes concorrentes, como as operações brasileiras do Citi e do HSBC. A criação da Via Varejo surgiu também após a união da Casas Bahia com o Ponto Frio. Na educação, grandes grupos como Kroton, Anima, Anhanguera e DeVry ganharam musculatura com a aquisição de rivais.

Um dos últimos segmentos a surfar na onda de fusões e aquisições foi o de locadoras de veículos. A mineira Localiza, a maior empresa do mercado nacional, comprou a subsidiária brasileira da americana Hertz, em dezembro de 2016, por R$ 337 milhões. Em março do ano passado, a também mineira Locamerica adquiriu 33,7% do capital da Auto Ricci, por R$ 329 milhões, e incorporou a Panda de Itu por R$ 47,7 milhões.

Tudo parecia bem acomodado. Parecia. Na semana passada, a Locamerica e a Unidas divulgaram a intenção de fundir suas operações – um negócio que envolverá R$ 998,5 milhões. A união está condicionada à análise e à aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), mas não deve enfrentar muita resistência dado o grau de pulverização do segmento de locadoras. No ranking desse setor, a soma da participação de mercado das três principais não chega a 45%.

Com a fusão Locamerica-Unidas, a Movida, do grupo JSL, cai para a terceira colocação. A Localiza continuará na liderança, com 19,6% de market share em tamanho de frota (ver quadro). Apenas como comparação, no mercado americano, três grupos – a Hertz, a Avis e a Enterprise, dona das bandeiras Alamo e National – dominam 90% do mercado. “Há pouco risco de a fusão ser vetada pelo Cade. Afinal, existem centenas de pequenas locadoras independentes espalhadas pelo Brasil”, afirma o analista Pedro Nogueira, que acompanha o setor.

Pode-se, portanto, apostar em mais negócios entre as locadoras, especialmente de grandes adquirindo pequenas, em um futuro não muito distante. “Esse ciclo de consolidação está se fechando para a Locamerica, por enquanto”, afirma Luis Fernando Porto, CEO da companhia. “Após a aprovação do Cade, a prioridade será criar sinergias e aprimorar os processos de trabalho de ambas as empresas.”

Para a Locamerica, a fusão é um salto e tanto. Com as recentes aquisições, em dois anos a frota da empresa se multiplicou por quatro. Juntas, Locamerica e Unidas serão responsáveis pela gestão de 100 mil veículos, 23 endereços, 72 lojas de seminovos e atuação em todos os estados do Ppís. A receita combinada superou os R$ 2 bilhões, de janeiro a setembro de 2017. O negócio foi fechado com a compra de 40,3% do capital da Unidas pela Locamerica, por R$ 398,6 milhões. O restante da transação acontecerá por meio de troca de ações.

A nova estrutura societária prevê participação de 39,2% dos controladores da Locamerica e 25,2% dos da Unidas, que incluem a Enterprise e a Principal, duas multinacionais do setor, além do fundo Fitpart Capital Partners, que pertence a ex-sócios do banco de investimentos Garantia. “Estão saindo os sócios financistas e ficando gente do negócio”, afirma o economista Álvaro Frasson, analista da Eleven Financial. Após a transação, os três fundos sócios (Vinci, Kinea e Gávea) venderam as suas fatias na Unidas. O mesmo caminho foi trilhado pelo Banco Votorantim, que se desfez de 4,91% das ações para a Itaú Corretora.

Para os grandes investidores que restam, a expectativa é que a empresa combinada consiga atuar com força similar tanto na locação para empresas quanto para o consumidor final. Segundo o CEO Luis Fernando Porto, 65% dos carros deverão ficar direcionados a frotas corporativas. “Não vejo um mercado melhor do que outro. Ambos têm grande potencial de crescimento no Brasil”, diz. “O setor pode crescer por mais uns cinco anos, com taxas próximas dos dois dígitos.”

DIFERENCIAL Haverá alguns desafios. “A Locamerica é a única empresa de capital aberto do setor que lucra com a venda de seminovos”, diz Frasson. Isso é um diferencial importante, já que a revenda dos carros usados representa atualmente metade da receita das grandes empresas de locação brasileiras. Ou seja, vender seminovos não significa apenas uma forma de aliviar custos e perdas, mas sim uma fonte de rentabilidade. E ela conseguiu isso diminuindo o tempo médio de uso de sua frota para 17 meses – segundo Porto, ao fim de 2018 esse índice baixará para 15 meses –, o que reduz os custos de manutenção e aumenta o valor de revenda. Esse objetivo, no entanto, só foi alcançado pela fato de a empresa se dedicar ao mercado de frotas corporativas, no qual os cuidados dos clientes com o veículo são maiores e o índice de sinistros, menor.

Outra vantagem da atuação junto às empresas são os contratos mais estáveis, de longo prazo, e um potencial grande de crescimento do nicho. Segundo a Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis (Abla), apenas 11% das empresas do país terceirizam as suas frotas. Em alguns países europeus, como a Inglaterra e a França, cerca de metade delas preferem essa estratégia. Para as locadoras que planejam se manter competitivas no setor depois da fase de consolidação, será preciso ampliar a atuação nas duas frentes. Afinal, escala é muito importante tanto para a compra de veículos junto a montadoras quanto para estabelecer uma rede de revendas de largo alcance.

Fonte: Estado de Minas – Impresso

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