57% usam IA na compra de carros
57% usam IA na compra de carros e decisão fica mais complexa no Brasil
A inteligência artificial não está encurtando a jornada de compra de veículos no Brasil: está tornando o processo mais longo e mais deliberado. Ao organizar informações, comparar opções e ampliar o acesso a dados, a tecnologia incentiva o consumidor a pesquisar mais antes de decidir, especialmente em uma compra de alto valor como a de um automóvel.
Os dados são do Google e foram apresentados durante o Anfavea Visions 2026. Segundo a empresa, 57% dos consumidores já usam ferramentas de IA ao longo da jornada de compra, e 13% afirmam delegar parte das escolhas à tecnologia. Outros 31% utilizam essas ferramentas especificamente para comparar marcas.
Na prática, a IA desloca o comportamento de busca. Em vez de partir de modelos ou montadoras, o consumidor passa a formular perguntas mais amplas, ligadas a uso e contexto, como custo de manutenção, adequação à rotina e perfil de uso. Isso tende a alongar a fase de consideração, já que mais alternativas entram na análise antes da decisão final.
Esse movimento acontece em um mercado automotivo ainda marcado por forte concentração de marcas e padrões de uso já consolidados.
Dados da Machine sobre corridas de aplicativos mostram que cinco montadoras dominam cerca de 80% das viagens analisadas: Chevrolet (20,94%), Volkswagen (19,08%), Fiat (18,40%), Hyundai (11,66%) e Renault (9,53%). Em seguida aparecem Ford (6,12%), Toyota (3,53%) e Nissan (1,15%). Entre os veículos chineses, a presença já alcança quase 1 em cada 12 corridas, cerca de 8,3%, com destaque para a BYD, responsável por 7,12% das viagens. O recorte indica que, mesmo com a ampliação das opções percebidas na fase de pesquisa, o uso cotidiano ainda se concentra em poucos fabricantes.
O Brasil aparece entre os mercados mais receptivos a essa mudança. Uma pesquisa Google/Ipsos com 21 mil pessoas em 21 países mostra que 54% dos brasileiros usaram IA generativa em 2024, acima da média global de 48%. O país também registra 65% de percepção positiva sobre a tecnologia, e 60% acreditam em ganhos econômicos associados ao seu avanço. “Para os motoristas, a escolha do veículo está diretamente ligada à rentabilidade, e a adoção de carros eletrificados representa não apenas uma tendência tecnológica, mas uma estratégia econômica concreta para manter o lucro diante da crescente pressão por custos operacionais menores”, afirma Júlia Camossa, estatística responsável pela plataforma.
Esse comportamento é ainda mais relevante no setor automotivo, onde a decisão envolve múltiplas variáveis técnicas e financeiras. A IA passa a funcionar como ferramenta de triagem e comparação, mas não reduz necessariamente o tempo de decisão, amplia o volume de informações consideradas.
O próximo passo dessa transformação deve vir com os agentes de IA, capazes de executar tarefas de forma autônoma para o usuário.
A projeção foi apresentada no mesmo evento por executivos do setor e inclui aplicações que vão do processo de compra ao pós-venda, com veículos conectados enviando dados diretamente a fabricantes e concessionárias.
Nesse cenário, a disputa entre montadoras e varejistas deixa de ser apenas por atenção e passa a ser também por presença dentro dos sistemas de recomendação. A forma como marcas estruturam informação tende a ganhar mais peso do que a publicidade tradicional na influência da decisão final.
