Movida (MOVI3) dobra receita em dois anos, mas ação segue descontada; o que diz o CFO?

A locadora de veículos Movida (MOVI3) tem reportado resultados fortes trimestre após trimestre.

 

Na divulgação mais recente, do período de abril a junho, a receita líquida da companhia alcançou R$ 2,3 bilhões, alta de 90% em relação ao registrado no mesmo intervalo do ano passado.

O Ebitda (lucro antes dejuros, impostos, amortização e depreciação) atingiu R$ 905,3 milhões no segundo trimestre, aumento de 133% em um ano, e valor recorde para a companhia.

Os números impressionam ainda mais quando comparados aos de 2019, ainda  pré-pandemia de coronavírus. Naquele ano, a receita da Movida foi de R$ 4 bilhões, o lucro somou R$ 220 milhões, e a frota atingiu 110 mil carros.

“Dois anos e meio depois, temos uma empresa com 207 mil carros, o faturamento dos últimos 12 meses foi de R$ 7,5 bilhões e o Ebitda, que era de R$ 800 milhões anuais, agora é de R$ 900 milhões no trimestre”, afirmou Edmar Lopes, CFO (Chief Financial Officer) da Movida, em entrevista à Agência TradeMap.

No entanto, nem tudo são flores. Junto com a alta de 90% da receita entre o segundo trimestre de 2021 e o mesmo período de 2022, as despesas subiram praticamente na mesma proporção. Como consequência, o lucro líquido foi pressionado e avançou 7,4%, para R$ 186,8 milhões.

Além disso, as ações da locadora de veículos têm apresentado performance inferior à de suas concorrentes, acumulando desvalorização de mais de 35% nos últimos 12 meses, contra perdas de 11,5% da Unidas (LCAM3) e alta de 0,6% da Localiza (RENT3).

Performance das ações de Movida, Localiza, Unidas e do Ibovespa nos últimos 12 meses
Performance das ações de Movida, Localiza, Unidas e do Ibovespa nos últimos 12 meses
Fonte: TradeMap

Mas isso, segundo o CFO, não é preocupante. Para ele, os dados resultam da estratégia adotada pela companhia de apostar em crescimento em meio a uma crise.

“Por ser uma estratégia menos óbvia, acredito que o mercado ainda precisa de um pouco mais de tempo para enxergar isso tudo”, afirma Lopes. “O reconhecimento do mercado vem de diferentes formas e vai chegar lá. É só questão de tempo.”

Confira a seguir a entrevista completa com Edmar Lopes, CFO da Movida.

Quais foram os destaques do balanço do segundo trimestre, na visão de vocês?

A nossa visão em relação ao resultado é bem positiva, porque continuamos em uma trajetória, planejada lá atrás, que era de sair da pandemia com uma estratégia diferente dos nossos competidores, crescendo frota, repassando preços e conseguindo entregar rentabilidade. E estamos conseguindo fazer isso. O cenário ficou mais complexo, mas chegamos neste momento com uma empresa muito maior, muito mais robusta e com outra estrutura de capital. Vemos um cenário em que temos demanda, estamos conseguindo comprar carros, renovar a frota e, com isso, continuamos executando a nossa estratégia.

E mais: construímos uma situação em que temos opções. Temos a opção de continuar crescendo como crescemos, com muita força. Mas também, por termos a frota mais jovem do Brasil, temos a opção de, se o mercado estiver mais ou menos, reduzir o crescimento e, ainda assim, seria um desempenho muito forte.

E quais são os planos? A estratégia de crescimento de frota deve continuar?

Como tudo no Brasil, todo dia é uma novidade. Em princípio, estamos dentro do nosso guidance de crescimento e de Capex, mas reconhecemos que tem a eleição, que algumas montadoras ainda não estão totalmente regularizadas… Então, sim, podemos reduzir um pouco o crescimento daqui para frente.

O crescimento de frota pesou sobre a linha de despesas. Vocês pretendem trazer a rentabilidade de volta ao foco?

São duas coisas. A primeira é o lado operacional. No operacional, a margem Ebitda se ampliou bastante ao longo dos últimos meses, em especial na comparação anual. Então houve um ganho de rentabilidade, porque o custo e a despesa cresceram mais devagar do que a receita, e estamos em um movimento de repasse de preços. O lucro avançou menos, fundamentalmente por conta do aumento da despesa financeira. Somos uma empresa que carrega dívidas, em um setor intensivo em capital, então acabamos “pagando um preço” na linha de lucro.

Vocês estão adotando alguma estratégia para lidar com as despesas financeiras?

Já alongamos o prazo das dívidas nos últimos dois anos. Hoje temos um perfil de amortização muito adequado para a nossa estratégia. O prazo médio de dívida é de mais de seis anos e temos dinheiro em caixa para pagar a dívida dos próximos três anos. Em relação ao custo, se desacelerarmos o crescimento, automaticamente a empresa desalavanca. E, desalavancando, conseguimos ter uma performance financeira melhor. Temos que aguardar as cenas dos próximos capítulos.

Então vai depender da estratégia adotada?

Sim. Temos rodado, nos últimos tempos, entre 2,7 e 3 vezes (dívida líquida/Ebitda) de alavancagem. Agora publicamos 3 vezes, mas, olhando para frente, deve ficar em torno de 2,7 ou 2,8 vezes.

Vocês têm conseguido repassar os custos nas tarifas. Tem um limite para isso?

Estamos vindo em um movimento de recuperação de transmissão de preço desde a metade do ano passado. A tarifa média saiu de R$ 70 e R$ 80 para R$ 120. Mas ainda precisa andar. Em julho, já operamos a R$ 140, demonstrando que estamos indo para um novo patamar agora. Devemos mexer na tarifa média do terceiro trimestre, avançando ainda mais um pouco.

Enxergamos o seguinte: precisamos chegar a um novo patamar para compensar a inflação e o aumento de juros. Se acharmos que não vamos chegar, iremos reduzir o crescimento para atingir uma tarifa de equilíbrio, mais alta do que praticamos hoje.

Nos últimos trimestres, a Movida tem apostado na gestão de frotas e no aluguel de longo prazo para pessoa física, o Movida Zero KM. Vocês têm colhido frutos disso? O foco continua forte?

Continua forte. O produto [Movida Zero KM] vem amadurecendo e hoje é relevante no GTF [gestão de frotas]. A boa notícia é que os outros produtos GTF, o GTF privado tradicional, que são as empresas, e o GTF público, por meio da CS Frotas, que trouxemos no ano passado, cresceram no trimestre. O aumento foi de dez mil carros, 10%, de um trimestre para o outro, o que é muito forte. Hoje temos três segmentos ali que se complementam.

Em outra frente, a normalização nas entregas de veículos pelas montadoras ajudou a frota crescer, mas também pesou nas margens de seminovos. O que vocês esperam?

O cenário dos seminovos, para nós, sempre foi de regularização de margens. A margem não ficaria em 20% ou 25%. Toda a discussão é em qual velocidade as margens se regularizarão. E, no segundo trimestre, as margens já caíram. Do nosso lado, tem dois movimentos que compensam, se não na totalidade, essa queda de margens de maneira importante. O primeiro é o aumento do preço dos carros vendidos, que saiu de R$ 64,5 mil para quase R$ 67 mil, em média. Então a margem cai, mas o preço aumenta (a Movida tem comprado veículos mais caros e, portanto, vendido a preços mais altos também), e isso gera um volume financeiro relevante. Ao mesmo tempo, iremos vender mais carros. Vendemos 15 mil no primeiro trimestre e 18 mil agora. Então, no final das contas, a margem bruta vai cair.

Em termos de depreciação, o que vocês esperam para os próximos trimestres?

A depreciação, que já aumentou em relação à do trimestre passado, tem dois componentes. O primeiro deles a adequação ao momento atual, que já reflete um pouco a queda de preço. O segundo é que também reflete a renovação de frotas. Se vendo um carro de R$ 70 mil, por hipótese, e compro um de R$ 90 mil, a depreciação aumenta nominalmente. Então esse movimento de elevação da depreciação vai acontecer naturalmente.

E não é um fator de preocupação?

Não. Como já estamos com a frota substancialmente renovada, totalmente renovada no RAC [aluguel de veículos], o nosso patamar, mais alto que o dos outros, já é o que vai ser. Agora todas as empresas irão comprar carros, então o patamar de depreciação será assim para as outras.

O que vocês esperam para os próximos trimestres?

A demanda continua importante. Acreditamos no fundamento de subpenetração [ou seja, que o mercado de aluguel de veículos ainda pode crescer significativamente]. Além disso, a pandemia trouxe novos usos, e temos conseguido capturar esse cliente novo. Um exemplo é o cargo (aluguel de veículos utilitários para entregas), um produto novo alinhado ao crescimento do e-commerce que irá acontecer.

Muitos nos perguntam também sobre a questão do preço do gás e da gasolina, se isso teve impacto negativo [na nossa operação]. Pode até ter havido, porque a gasolina ficou mais cara. Mas, por outro lado, esse mesmo preço do petróleo também afetou negativamente a passagem aérea. Então, podemos ter capturado demanda de pessoas que talvez fossem viajar de avião e agora mudaram de modal.

No fim das contas, o que tenho dito é que estamos conseguindo capturar esses movimentos de mudança de hábito, de mudança de demanda. Acho que, olhando à frente, [temos que] continuar com essa mesma pegada, de estar muito próximo do mercado, focado no cliente, digitalizar cada vez mais e sempre procurar melhorar a experiência.

Não quer dizer que o jogo esteja ganho, mas estamos muito satisfeitos com tudo o que foi feito até agora.

Apesar dos números sequencialmente bons, a ação da Movida ainda tem um desconto em relação às concorrentes. Vocês creditam isso a quê?

Adotamos, desde a pandemia, uma estratégia diferente dos concorrentes. Essa estratégia é menos óbvia, crescemos durante um período em que praticamente ninguém cresceu. Por ser uma estratégia menos óbvia, acredito que o mercado ainda precisa de um pouco mais de tempo para enxergar isso tudo. Mas, no fim do dia, sabemos que é um dos desafios que temos como uma empresa aberta. Estamos tranquilos, no sentido de que acreditamos que essa é a melhor estratégia para a companhia. O reconhecimento do mercado vem de diferentes formas, e vai chegar lá. É só questão de tempo.

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